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terça-feira, 27 de abril de 2010

Rifa-se um CORAÇÃO


"Rifa-se um coração
Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste
em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade está um
pouco usado, meio calejado, muito machucado
e que teima em alimentar sonhos e, cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente que nunca desiste
de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado coração
que acha que Tim Maia
estava certo quando escreveu...
"...não quero dinheiro, eu quero amor sincero,
é isso que eu espero...".
Um idealista...Um verdadeiro sonhador...
Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece, e mantém sempre viva a
esperança de ser feliz, sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional
sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando
relações e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste em cometer
sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome
de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posições
arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado.
Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional
que abre sorrisos tão largos que quase dá
pra engolir as orelhas, mas que
também arranca lágrimas
e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado,
ou mesmo utilizado
por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado indicado apenas para
quem quer viver intensamente
contra indicado para os que apenas pretendem
passar pela vida matando o tempo,
defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente
que se mostra sem armaduras
e deixa louco o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater
ouvirá o seu usuário dizer
para São Pedro na hora da prestação de contas:
"O Senhor pode conferir. Eu fiz tudo certo,
só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal
quando ouvi este louco coração de criança
que insiste em não endurecer e,
se recusa a envelhecer"
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por
outro que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate
tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo,
mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que ainda
não foi adotado, provavelmente, por se recusar
a cultivar ares selvagens ou racionais,
por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio,
sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento
até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que,
mesmo estando fora do mercado,
faz questão de não se modernizar,
mas vez por outra,
constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence
seu usuário a publicar seus segredos
e a ter a petulância de se aventurar como poeta."


Clarice Linspector

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Preferidos: A Competência do Coração

Quem me conhece sabe que sou uma grande fã do Paula Sant'Ana, crônista do jornal de maior importancia aqui no RS, além de torcedor fanático do Grêmio, que por coincidência é o time do meu coração!

Vasculhando meus guardados(uma pastihas textos, no canto mais escuro do meu Disco Local D), achei esse texto, é a crônica que eu mais gosto desse grande autor, quero dividí-la com vocês.






A competência do coração


O coração não sente ciúme. O coração só ama. Quem sente ciúme é o cérebro. Por


isso se diz que o ciúme é coisa da cabeça da gente.

O ciúme é um sentimento tão pérfido que não cabe no coração. O ódio também não

é detonado pelo coração, ao contrário do que muito já se disse. O ódio também vem do

cérebro. Por isso é que se diz que estamos com a cabeça quente.

O coração só ama. Ternura vem do coração. Tolerância vem do coração. Bondade

só vem do coração.

Quando alguém trai a quem ama ou estima, é porque o coração foi superado na luta

que ele mantém contra os outros órgãos.

Não existe mau caráter original. O caráter só será mau quando o coração não tiver

influência sobre ele. E será bom quando o coração o tiver envolvido.

Tanto prova que é corrente a expressão “mau-caráter”. Mas nunca se ouviu dizer

“mau coração”. Porque no coração só cabem as coisas boas. A lixeira do homem está em

outras partes, algumas bem notáveis, do seu corpo. No coração não cabe nem um

“argueiro”.

O coração é a parte nobre do corpo humano, todas as outras são plebéias, porque se

conspurcam.

A bênção sai do coração, o impropério salta do cérebro. Saudade nasce no coração,

rancor vem do cérebro.

Quem dispara a lágrima é o coração. Quem dispara o revólver é o cérebro.

E sempre se travará a luta, descrita pelos filósofos, entre o cérebro e o coração. E o

incrível é que nesta luta, vença quem vencer, a razão sempre está com o coração.

Quando enfrenta o coração, o cérebro perde a razão. “E o coração tem razões que a

própria razão desconhece.”.

Razão só tem aquele que tiver coração. Coração só tem aquele que mostrar boa

razão.

O cérebro é, portanto, um mero rival do coração. E o homem se corrompe quando o

cérebro toma o lugar do coração.

Eu às vezes amo tanto que penso que tenho dois corações, o segundo no lugar do

cérebro. Sem cérebro eu enlouqueço de tanto amar, porque só o cérebro pode travar a

corrida alucinada do coração para o amor.

Daí que quem pensa não ama, e quem ama não pensa.

Se o destino tiver que escolher entre me avariar o cérebro e o coração, que me

preserve o coração e dane-se o meu cérebro. Mil vezes ser um encefalopata do que um

cardiopata.

Prefiro vegetar como um idiota, mas tonto de amor.

Paulo Sant'Ana